Relações recíprocas entre natureza e sociedade

A sociabilidade é tanto uma lei da natureza como é a luta mútua. Quem são os mais aptos, aqueles que constantemente lutam entre si ou, ao contrário, aqueles que se apóiam entre si? P. Kropotkin

Relações recíprocas entre natureza e sociedade

Através da história da humanidade houve distintas posições científicas sobre a teoria da evolução. As descobertas de Charles Darwin[1] sustentaram que a luta pela sobrevivência constitui o princípio dominante da natureza em geral e das sociedades humanas em particular. As investigações posteriores não descartaram o enfoque darwiniano, mas o completaram. Peter Kropotkin[2] observou que a natureza mostrava a luta entre diferentes espécies e entre grupos de uma mesma espécie, mas em termos gerais se chegou à conclusão que a convivência pacífica e o apoio mútuo prevaleciam dentro do grupo e da espécie.

Atualmente, vemos que nas espécies nas quais está mais desenvolvida a solidariedade e a ajuda recíproca entre os indivíduos, são maiores as possibilidades de sobrevivência e evolução. Para citar um exemplo podemos observar o comportamento das formigas [3], entre elas não existe a luta nem a competição pelo alimento entre os membros de um mesmo formigueiro ou de una colônia de formigueiros. A ajuda mútua dentro da comunidade, a abnegação em benefício comum se transformou em costume, e o sacrifício em bem comum; é a regra geral.

A mesma coisa teria que acontecer na sociedade humana; tomar consciência de que sem a ajuda mútua não poderíamos nos manter além de uma geração”.

Reconhecer a importância que têm a cooperação e a ajuda mútua na adaptação social não contradiz de nenhuma maneira a teoria da seleção natural de Darwin. O apoio mútuo é um fator biológico de evolução, e tanto é assim, que podemos afirmar que o principal papel na evolução ética da humanidade foi desempenhado pela ajuda mútua e não pela luta mútua. Na ampla difusão do princípios de ajuda mútua – ainda que em meio a uma crise global – a vemos também como a melhor garantia de uma evolução mais elevada do gênero humano e aqui entra em jogo o instinto de sociabilidade. Este instinto ensinou igualmente homens e animais a ter consciência do prazer que se pode achar na vida social.

Se observarmos a psicologia dos animais e a ética humana – o amor, a simpatia e o sacrifício – naturalmente desempenham um papel enorme no desenvolvimento progressivo de nossos sentimentos morais. Além disso, foi criada sobre a consciência – ainda que seja instintiva- a solidariedade humana e da dependência recíproca dos homens. O apoio mútuo se constrói então sobre o reconhecimento inconsciente da força da prática comum, de dependência estreita entre os seres vivos. São os sentimentos de justiça ou equidade que obrigam o indivíduo a considerar os direitos do grupo por cima dos individuais. Portanto, se nos perguntamos: quem são os mais aptos, aqueles que constantemente lutam entre si ou, ao contrário, aqueles que se apóiam entre si? Imediatamente vemos que os animais que adquiriram os costumes de ajuda mútua provam – sem dúvida alguma – ser os mais aptos. Têm mais possibilidades de sobreviver como indivíduos e como espécie, e alcançam em seus correspondentes níveis o mais alto desenvolvimento mental e organização física.

Como síntese, podemos mencionar que a adaptação dos seres vivos a seu meio ambiente, seu desenvolvimento progressivo, anatômico e fisiológico, o progresso intelectual e ainda o aperfeiçoamento moral, são fenômenos que começaram a se mostrar para nós como parte de um processo comum. Começamos a compreendê-los como uma série de esforços ininterruptos, como uma luta contra diferentes condições desfavoráveis, passando por várias crises -desde o início da história- em uma luta que conduziu ao desenvolvimento de indivíduos, raças, espécies e sociedades tais que hoje nos definem. Então, nesta época de crise global devemos tomar o exemplo das leis da natureza para saltar ao próximo degrau da evolução humana: apoiar-nos mutuamente para construir uma nova sociedade em concordância com a natureza.

[1] O naturalista inglês Charles Darwin postulou que todas as espécies de seres vivos evoluíram mediante um, processo denominado seleção natural.

[2] Peter Kropotkin foi um geógrafo e naturalista russo que desenvolveu a teoria do apoio mútuo.

[3] http://www.youtube.com/watch?v=hnltUzQLqgw&list=FLHr-fCKzFVlIN3jQEI2J38A&index=2&feature=plpp_video